Domingo, 24 de Maio de 2009
3.7. Erotismo e Pornografia

Desde sempre que este género cinematográfico foi muito polémico. Surge por volta de 1920, onde era exibido em bordéis e em 1970, nos Estados Unidos, ganha destaque quando a classificação dos filmes por faixa etária é instituída. O cinema pornográfico passa a ter salas próprias para as exibições dos filmes, conhecidas como “Salas Especiais”. É nesta época de destaque e “descoberta” do cinema pornográfico que surge estrelas como Linda Lovelace protagonista do filme Garganta Funda, escrito e realizado por Gerard Damiano em 1972.

Segundo o autor Jose Escudero existem várias noções de pornografia/erotismo: erotismo “vulgarizado”, em que o acto sexual se torna algo natural e pouco complexo - “ (…) a entrega sexual se converteu numa coisa tão natural que se realiza em qualquer lugar e da mesma maneira que se come quando se tem fome ou se bebe quando se tem sede: uma simples função de higiene corporal.” (José Escuedro in Vamos falar de Cinema); erotismo perverso, depois do erotismo “modesto” há uma necessidade de inovar e elaborar um pouco mais o conceito de «erotismo» “À erotização simples segue-se a perversão: lésbicas, invertidos, sádicos e masoquistas, fetichistas (…) ” (José Escudero in Vamos falar de Cinema); erotismo violento, uma fuga/procura a outros métodos excitantes “O passatempo da futura humanidade, segundo o filme de Elio Petri A Décima Vítima (La decima vittima), serão as caçadas humanas. (…) além da violência estritamente animal, há a violência-perversão, sádica ou masochista.” (in Vamos falar de Cinema, Lisboa, Editorial Verbo); erotismo e os estupefacientes, onde os filmes primam pelo consumo de drogas e experiencias que estas podem provocar “Vêm então as drogas.” (José Escudero in Vamos falar de Cinema); erotismo canibalesco e suicídio, outra forma de despertar interesse no público.
A fim de melhor explicitar o papel da mulher neste tipo de filmes, abordamos agora, então, três obras marcantes: Ai No Corrida – em português, O Império dos Sentidos (1976), Deep Throat – Garganta Funda (1972) e La Grande Bouffe – A Grande Farra (1973).


O Império dos Sentidos é um filme-marco na história do cinema porque quebrou a barreira entre o chamado cinema-arte e a pornografia hard-core. Algumas "boas consciências" tendem a considerá-lo como uma obra erótica e não pornográfica para justificar a sua aceitação/propagação no circuito mainstream do cinema. Isso levar-nos-ia a entrar na sempre eterna discussão sobre o que é erotismo e o que é pornografia. Para alguns a divisão é simples de fazer: se há sexo explícito e mostrado então é pornografia. Assim sendo, dificilmente O Império dos Sentidos  escaparia a esta classificação.

A história do surgimento deste filme está ligada a um momento importante na história legal em França, a do fim das leis anti-obscenidade. Tal acto legislativo teve consequências óbvias e imediatas em vários domínios artísticos e o cinema não lhe escapou. Assim se percebe, portanto, que O Império dos Sentidos tenha sido a grande sensação do Festival de Cannes de 1976. Naturalmente que tal não teria acontecido se não tivesse havido o sucesso dessa obra cinematográfica menor chamada Garganta Funda, este, sim, indiscutivelmente um filme pornográfico sem nenhum tipo de ambições artísticas. Sem Garganta Funda, de 1972, e a atenção que despertou no seio de uma certa intelectualidade e o consequente sucesso comercial quase planetário que fez, jamais a pornografia se teria tornado uma forma legítima de entretenimento com possibilidades de ser explorada de forma artística por cineastas de renome. Também não é um acaso que este filme seja realizado por um autor japonês. O cinema asiático, e muito particularmente o japonês, tinha sido pioneiro na estetização da pornografia violenta, sendo impossível não referir o Blind Beast, filme de 1969 como um dos percursores desta tendência.
Mas voltemos ao Garganta Funda. Como referido antes, é um filme de 1972, tipicamente saído da indústria pornográfica, baixo orçamento, 6 dias de filmagens, actores praticamente amadores. E, portanto... surgiu na altura certa? Os anos 60 e início dos 70 caracterizam-se por serem palco de vários fenómenos de contra-cultura. Terá bastado que uma ou outra voz com peso "cultural" tenha reparado nele para que, de um momento para o outro, se tenha tornado uma espécie de filme ícone da "contra-cultura" rapidamente incorporado na cultura dominante. Recentemente um documentário - Inside Deep Throat - fez um exelente trabalho mostrando o caldo cultural em que os orgasmos de Linda Lovelace floresceram.
Passemos agora ao terceiro dos filmes que nos foram propostos, La Grande Bouffe, de 1973. Também aqui o "ar do tempo" é fundamental para perceber o seu sucesso e controvérsia. A história é simples de contar, quatro bem sucedidos burguesinhos juntam-se numa villa para concretizarem um estranho pacto de suicídio, comerem até à morte. O filme é um desfilar de orgia alimentar e sexual e funciona claramente como uma crítica ao sistema capitalista.
E a mulher? Que papel desempenha nestes 3 filmes? Há alguma diferença evidente entre eles para além das óbvias? Diríamos que sim, enquanto nos dois filmes ocidentais, o assumidamente pornográfico e o erótico - (e também mais antigos) a sexualidade e o prazer femininos são, ou subsidiários da masculina (La Grande Bouffe), ou dependentes dela (Deep Throat), em Ai No Corrida... há um olhar diferente: há uma interacção entre os prazeres masculino e feminino, sem desaparecer nunca um lado de busca pessoal e independente da personagem feminina principal. Um paradoxo interessante, e aqui já só falamos de indústria/cinema pornográfico, é apercebermo-nos que, tirando raríssimas excepções, as estrelas deste tipo de cinema são as mulheres.
 

 



publicado por Área de Projecto às 15:18
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Trabalho realizado por:
Catarina Viana, Irina Pedroso, Joana Alves e Sarah Saint-Maxent
Coordenadas pela
Professora Cecília Cunha
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