Domingo, 24 de Maio de 2009
2.7. A Mulher no Cinema Português (1930-1960)

O cinema português foi um dos primeiros do mundo. O pioneiro, Aurélio da Paz dos Reis, apresentou Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança, em 12 de Novembro de 1896, um ano depois de Lumiére.
Mas em Portugal, como noutros países, o cinema é encarado apenas como um passatempo, uma ocupação artesanal.
Em Portugal, como no resto do mundo, também a mulher teve um papel preponderante no desenvolvimento cinematográfico nacional.
No período dos anos 30-60, Portugal passou por experiências cinematográficas de cariz diverso – O surgimento do sonoro, o cinema durante o Estado Novo e o novo cinema português (o dito “cinema de oposição”) são os exemplos referenciados e desenvolvidos, e com estes também as mulheres se transmutaram e adaptaram.
E que melhor prova disso poderíamos nós dar, se não os próprios filmes?

 


Como considera Carolin Overhoff Ferreira, na sua obra O cinema português através dos seus filmes, os anos 30 e 40 são referenciados, por neles terem surgido “a primeira e única indústria” cinematográfica, e com eles nasce Severa, a novela de Júlio Dantas adaptada ao cinema, em 1931, por José Leitão de Barros, “ o primeiro filme sonoro realizado em Portugal” (in O cinema português através dos seus filmes de Carolin Overhoff Ferreira) e a Canção de Lisboa (1933), de Cottinelli Telmo.
"A Severa é sobretudo uma crónica visual de gente triste e desajeitada (...). E que, entre campinos nas lezírias (a soberba abertura do filme), touradas à antiga portuguesa e quase todo o arsenal folclórico, vai desencantar uma tipologia humana, que aceita sem revolta a fatalidade e a miséria e dessa inércia ou desse abandono retira a sua força dramática. É nesse sentido que A Severa foi e é um dos mais admiráveis retratos de Portugal, combinando a pequena maldade com a grande complacência. Poucos imaginários visuais nos restituíram tão bem " (João Bénard da Costa in Histórias do Cinema).

A cigana Severa (interpretada por Dina Teresa), protagonista do filme a quem concede o título, é retratada como uma mulher “auto-suficiente (…) pós sincronizada (…) que fascina e enfeitiça os homens através do seu fado” (Carolin Overhoff Ferreira in O cinema português através dos seus filmes), no entanto esta vive numa constante encruzilhada, pois o seu “feitiço” faz com que não consiga encontrar o que procura. Severa procura o que todas as mulheres da época procuravam: a segurança, o apoio, o abrigo num homem. Mas, por ter diversos homens “a seus pés” acaba por não se conseguir decidir, durante a trama, por nenhum deles. Ela acaba sozinha, descontente com a sua vida, “Severa canta uma última vez e morre (…) com a vila em festa.” (Carolin Overhoff Ferreira in O cinema português através dos seus filmes).
Em 1933, surge ,A Canção de Lisboa, “a primeira comédia portuguesa” (António Barreto e Maria Filomena Mónica in Dicionário da História de Portugal, vol.I) realizada por Cottinelli Telmo.
"A Canção de Lisboa é, em minha opinião, uma das melhores comédias europeias dos anos 30 e, sem dúvida, um dos melhores filmes portugueses de sempre. Além de ser a matriz de onde arrancou toda a comédia nacional, não havendo uma só, depois dela, que dela não dependa. (…) A maior novidade – e o maior trunfo do filme – veio da interpretação, catapultando para a glória os vultos cimeiros do nosso teatro de revista.
Acima de todos, Beatriz Costa que foi, sem dúvida, a mais intensa presença feminina do nosso cinema e o mais espantoso caso de fotogenia e talento dele.” (João Bénard da Costa in História do Cinema).
“Alice”, a costureirinha interpretada por Beatriz Costa, pelo que podemos verificar através da visualização de excertos do filme A Canção de Lisboa assumia o papel de uma mulher simples, alegre, cheia de vida, pouco ou nada instruída, que obedecia cegamente a uma autoridade masculina, no caso, ao seu pai. No entanto, assumia um lado “revolucionário” usando o cabelo curto, vestidos decotados e por cima do joelho, e uma coragem de enfrentar a sociedade conservadora, através da sua atitude um pouco irreverente, considerando a época.
Outras comédias foram criadas, como A Aldeia da Roupa Branca (1939), O Pai Tirano(1941), O Pátio das Cantigas (1942). “Estes filmes são optimistas e inocentes, servindo como reflexo de uma sociedade ordeira e respeitosa, e dos tão alardeados brandos costumes do povo português” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes) que são olhados de maneira utópica pois a dura realidade da vida quotidiana, nos tempos de Salazar, é ocultada.
“Quando, em 1933, foi [António Ferro] nomeado para o Secretariado de Propaganda Nacional contou com quem, como ele, era um “modernista” convertido ao Salazarismo, António Lopes Ribeiro” (António Barreto e Maria Filomena Mónica in Dicionário de História de Portugal).
A Revolução de Maio (1937), filme realizado por António Lopes Ribeiro, “é sem dúvida, a obra mais significativa, em termos de cinema, de propaganda do “Estado Novo” de Oliveira Salazar” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes) e narra a história de um perigoso agitador, César Valente (António Martinez), que regressa do exílio, para desencadear a insurreição a 28 de Maio, mas a sua paixão por uma linda enfermeira adepta do Regime – Maria Clara (pela actriz Maria Clara) – e a constatação das transformações sociais e económicas operadas no país durante a sua ausência, suscitam, em César Valente, uma conversão ao Salazarismo.
Depreendemos, então, que Maria Clara, “jovem simples e virtuosa, alegado protótipo do arquétipo da mulher portuguesa” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes) usufruiu da sua paixão com César Valente, para o incentivar e influenciar a abandonar o comunismo e a converter-se ao Regime da qual ela e a sua família eram adeptos. Na cena em que Maria Clara declara o seu amor a César Valente, também afirma que não pode continuar a vê-lo, dizendo: “Não posso lembrar-me que o senhor esteve e está ainda ao lado daqueles que mataram o meu pobre pai. Jurou-me um dia que não era um criminoso. Não lhe parece que uma revolução pode ser pior que um crime?” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes).
Não haverá melhor exemplo que A Revolução de Maio para caracterizar o cinema apoiado, financiado e permitido pelo Regime.
Durante a década de 50, “foram proibidos – por razões de ordem política, moral, social, religiosa, sexual, militar, etc. – cerca de 300 filmes” (Alves Costa in Breve História do Cinema Português), o que causou a estagnação do cinema português.
O Novo Cinema Português, assumiu-se como um movimento vanguardista, que rompeu com a ideologia vigente, imposta durante o Estado Novo, nos anos 60. Neste período, jovens e cultos cineastas deixaram-se envolver pela Nova Vaga francesa e o neo-realismo italiano e investiram numa diferente perspectiva cinematográfica: Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha e produzido por António Cunha Teles “na opinião dos historiadores do cinema português, assinalou realmente a ruptura com o “velho cinema” “ (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes).
Também neste Novo Cinema, a mulher teve um papel fundamental. Em Verdes Anos Isabel Ruth interpreta Ilda, uma jovem que “consegue igualmente conjugar a sua identidade de rapariga provinciana com os seus desejos pela moda e pela música moderna” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes) e se apaixona por Júlio (Rui Gomes) um provinciano acabado de chegar a Lisboa para tentar a sua sorte, que acaba por assassiná-la.
“Enquanto as classes sociais são flexíveis no “velho cinema”, os Verdes Anos apresenta esta visão através de Ilda e questiona-a” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes). Isabel Ruth, ao dar vida a Ilda, é utilizada como instrumento de manifestação contra os “bons costumes” propagados pelo cinema tradicional. “ Apesar do filme não possuir nenhuma referência directa ao Estado Novo e à ditadura, ele referencia subtilmente a situação difícil dos trabalhadores: a sua exploração pelos patrões (…) os ordenados precários (…) dos quais surgem desejos de emigrar para países ricos da Europa, como França e Alemanha, e a intransigência da situação social. (…) É nisto que consiste o encontro do filme com a realidade portuguesa: os sonhos de uma vida melhor de Ilda não são uma perspectiva razoável para Júlio, e a sua frustração e falta de horizonte acabam na sua reacção radical.” (Carolin Overhoff Ferreira in O Cinema Português através dos seus filmes).
Verdes Anos, é o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaço de frustração, espaço claustrofóbico, sem saída, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda.” (João Bénard da Costa in História do Cinema). O que vem a ser confirmado na sequência final do filme: o beco sem saída onde Júlio vai parar depois de cometer o assassinato de Ilda, e o cerco que lhe é feito, é interpretado como uma crítica subjacente ao regime.
Neste contexto, apercebemo-nos que, em Portugal, a mulher evoluiu conforme o cinema, o regime e/ou a própria oposição: passou de papéis meramente secundários, para papéis principais que, na altura do Estado Novo e da Censura eram simplesmente didácticos – a mulher nos filmes patrocinados pelo regime era o exemplo, dado pelo Estado, de “mulher perfeita” – já no Novo Cinema Português/Cinema de Oposição, a mulher era utilizada para a crítica social, fazendo valer, muitas vezes, os seus direitos, as suas ideologias revolucionárias, através dos papéis que interpretava.
 

 



publicado por Área de Projecto às 16:06
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Maio 2009

Trabalho realizado por:
Catarina Viana, Irina Pedroso, Joana Alves e Sarah Saint-Maxent
Coordenadas pela
Professora Cecília Cunha
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