Domingo, 24 de Maio de 2009
2.1. A Mulher no Cinema Americano (1908 – 1962)

Neste capítulo, abordamos o período de ascensão e consolidação do cinema norte-americano, por corresponder ao surgir das primeiras divas de Hollywood. Obviamente, ao contrário do que acontece noutros países, não se pode dizer que este tenha sido o apogeu das produções cinematográficas — dá-nos, no entanto, uma ideia muito específica do papel das primeiras figuras femininas no grande ecrã.
Neste período, da ascensão inicial do cinema norte-americano (leia-se período compreendido entre 1908 e 1918), a figura feminina apresentada era, de certo modo, limitada. Nesta época, quem comanda o mundo do cinema é o realizador e Griffith é o nome sonante e reconhecido por todos: é, portanto, ele, quem escolhe que estrelas e os papéis que irão ser desempenhados. Habitualmente, estes estariam entre a jovem criança (normalmente interpretada por Mary Pickford), a mãe, esposa e dona de casa, ou a mulher perseguida, que seria resgatada pelo herói.

 

Alguns anos mais tarde, continua a ver-se este tipo de estereótipo, mas agora assente no “ideal feminino da América” (Georges Sadoul in História do Cinema Mundial): “caracóis loiros (...), vestuário elegante e simples, (...) rosto redondo de boneca de porcelana.” Mary Pickford encarnava perfeitamente este papel, sendo uma das figuras de destaque da produção cinematogáfica da época e, sem dúvida, a figura feminina de maior relevo.
Na década de 20, o comando das produções passa do realizador para o produtor, numa relação estreita com os capitalistas e investidores. É, também, nesta altura que as estrelas de cinema começam a assumir o protagonismo que alcançam actualmente: “o sistema tendeu mesmo a transformar em verdadeiras divindades actores como (...) Mary Pickford, (...) Gloria Swanson, (...) Mae Murray, Norma Talmage, Clara Bow” (Georges Sadoul in História do Cinema Mundial).
No pós-Primeira Grande Guerra, o papel da mulher surge numa nova perspectiva, muito ligado ao erotismo, e renova-se o cinema cómico, com a “comédia mundana”, muito ligada à figura da actriz Gloria Swanson: exemplo disso é Male and Female (1919).
Os Estados Unidos adoptam, agora, uma política de proteccionismo da indústria nacional, em que quase todas as salas de cinema passam exclusivamente cinema norte-americano. Aliada a esta situação, a fortíssima exportação deste tipo de indústria para a Europa incentiva o crescimento dos grandes grupos, como a Paramount, a Fox ou a Universal. Torna-se, portanto, necessário que, para se vencer neste mundo, se pertença a Hollywood: inicia-se assim a sua supremacia a nível mundial.
É neste contexto que surge Greta Garbo, de origem sueca, e cujos primeiros papéis em Hollywood, The Torrent (1924) e The Temptress (1926), nos ajudarão, decerto, a compreender a variedade de papéis femininos agora interpretados: “no primeiro, Greta é uma camponesa; no segundo, uma mulher sedutora, sensual e vaidosa, uma «vamp»” (Madalena Santos in Divas do Cinema). O papel da mulher deixa de ser secundário, como até aí acontecia, e aparece como figura principal das obras, quer em histórias de amantes, com a sensualidade ao rubro e aproveitando todas as “armas femininas”, quer em produções como Greed (1924), em que Zazu Pitts interpreta inicialmente uma “cândida rapariga” (Georges Sadoul in História do Cinema Mundial), tal e qual uma heroína de até então, que se modifica totalmente com o casamento, passando a aqduirir uma personalidade avarenta e completamente deformada. Este tipo de papéis demonstra uma certa profundidade e riqueza na caracterização de persongens, que não existia até então, sobretudo no caso das mulheres.
A partir de 1929, com a crise de Wall Street, deu-se uma enorme quebra na produção de filmes: assim, as grandes produtoras concentram-se em grandes obras, que nesta altura, se baseiam muito na Ópera e em espectáculos da Brodway. É a época áurea dos musicais. Neste período, a figura da “pin-up girl”, sempre muito ligada ao fetichismo, substitui o erotismo vivido na forma de “sex appeal”, como até aí. A “femme fatale” e a “nova vamp”, mistificadas na figura de Marlène Dietrich, alemã na altura, são os novos estereótipos femininos.
Com o rebentar da Segunda Guerra Mundial, o cinema surge como uma crítica ao anti-semitismo e a Hittler. Assim, tanto os papéis femininos como os masculinos deixam ter deter o destaque das produções, passando a ser utensílio de crítica social e mudança das mentalidades. Exemplo deste tipo de cinema é Casablanca (1942), obra que retrata a história de quem tentava fugir da Europa ocupada pelos nazis para território supostamente neutro – neste caso, a cidade de Casablanca, em Marrocos.
É de realçar o papel da actriz Ingrid Bergman, uma alemã casada com um dos líderes da resistência checa, a heroína que não é heroína mas sim a “outra metade”, o completar da personagem masculina, o seu apoio fundamental.
Depois de 1945, a produção americana seguiu três caminhos bem distintos: a Guerra Fria e o anti-comunismo motivaram uma série de obras “anti-vermelhos”, em que, tal como durante a Grande Guerra, as personagens não são mais do que instrumentos de crítica social; o reaparecimento do papel da mulher sensual, bem como de papéis em que a “verdadeira mulher” tenta ser retratada, são passaportes para a ascensão de estrelas das quais se destacam Rita Hayworth e Marylin Monroe –
a primeira surge no início dos anos 40 e alcança a fama com o enorme sucesso Gilda (1946), “um enorme decote e umas compridas luvas) (Georges Sadoul in História do Cinema Mundial), a “explosão de sensualidade e sedução” (Madalena Santos in Divas do Cinema, p. 46), a segunda com papéis iniciais em que representava “a autenticidade, a frescura, a inquietação (...) da província dos Estados Unidos” (Georges Sadoul in História do Cinema Mundial) e, depois, a partir de All About Eve (1950), como sex-symbol, a diva loira “vestida de branco, ousadamente decotada” (Madalena Santos in Divas do Cinema), tal como é recordada hoje em dia; finalmente, renasce o cómico, com Jayne Mansfield à cabeça, com papéis em que caricaturiza a figura de Marylin Monroe, que alcançam grande sucesso.
Para concluir, resta abordar o papel fulcral que MM, a diva Marilyn Monroe, teve para a definição do papel da mulher no cinema americano da época: tal como nos papéis que representou, a figura feminina surge nos mais diversos contextos, com variadas funções (sociais) e diferentes representações. No entanto, a partir de 1950, é o papel da mulher cheia de glamour que impera, a “beleza com voluptuosas curvas e generoso peito”, embora sempre mais que “a deusa sexual dos anos 50” (in Marilyn Monroe’s Official Web Site, autor não descriminado, tradução própria).
É, aliás, nesse “mais que a deusa sexual” que se insere outra faceta de MM, que muito irá contribuir para o seu papel de emancipadora da mulher americana. Trata-se da sua própria biografia, da sua história pessoal e do facto de, tantas e tantas vezes, essa ser exactamente o oposto daquilo que tenta transmitir na tela.
Podemos partir, por exemplo, das suas relações amorosas e dos seus múltiplos casamentos para analisar de que forma foi significativo o seu percurso de vida, já que não pretendemos elaborar uma biografia exaustiva da Mulher-ícone. A sua primeira relação duradoura conhecida foi com Jimmy Dougherty, com quem casou e, posteriormente, se divorciou. Depois, manteve relações matrimoniais com Joe DiMaggio, jogador de baseball e Arthur Miller, dramaturgo. Ao mesmo tempo, como é sabido, manteve uma relação com John F. Kennedy, que se iniciou ainda antes deste ter tomado posse como Presidente dos Estados Unidos da América. Estas relações, como Marilyn frequentemente anunciou, não eram produto do seu amor, mas sim do amor e do desejo dos homens, que a seduziam e que lhe davam algum conforto e segurança. Aliás, é esse o aspecto que pretendemos salientar: as relações que Marilyn manteve são, muitas vezes, fruto da sua insegurança e conflitos pessoais. O facto de estar casada dava-lhe uma certa segurança, mostrava que era querida e amada e, de certa forma, afastava receios e medos. 
Interessante é notar que esta visão é completamente contraditória com a da emancipação da mulher: porque afirmamos, então, que MM teve um papel fulcral nesse aspecto da revolução feminina? Bem, trata-se do facto de MM ter percebido que não seria essa (fragilidade) a atitude que deveria passar e dar como exemplo – porque, sim, tinha consciência de que, como ícone, era exemplo para todas as mulheres. Então, no ecrã, representava mulheres independentes e fortes, normalmente, e tentava controlar os aspectos da sua vida privada que seriam do conhecimento público. Assim, tentou mostrar, embora isso não representasse a sua própria vida, a superioridade e independência femininas.
Marylin contribuiu, então, tremendamente, para a emancipação da mulher americana, aliando a sua aparência a uma aparente vulnerabilidade e inocência, que levaram a uma consciencialização global da figura feminina – deixa de ser vista como objecto, como acontecia normalmente até aí, e passa a ser considerada um ser digno de respeito e protecção.
 

 



publicado por Área de Projecto às 16:11
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Maio 2009

Trabalho realizado por:
Catarina Viana, Irina Pedroso, Joana Alves e Sarah Saint-Maxent
Coordenadas pela
Professora Cecília Cunha
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